sexta-feira, 6 de julho de 2018

POSTAGEM DO BLOG CANETA,LENTE E PINCEL


Eram tantas as asas
Quando tinha os cabelos escuros
Tantos voos
Com as pernas ainda sãs
Tantos sonhos
E desejos
E planos
E agora este rés de chão
Olhando para baixo
Para baixo
Para dentro do meu coração

Imagem: Marilene Nacaratti
Texto: Maria Emilia Algebaile

quarta-feira, 4 de julho de 2018

DESERTO


DESERTO

De longe - distâncias
De perto - carências
Por dentro - ignorâncias
Por fora - ausências


Deserto é falta de referências.

sábado, 19 de maio de 2018

Sobre o livro AGORA VAI SER ASSIM, de Leonardo Tonus



A poesia, se não arrebata, foge ao seu destino. E é com enlevo que discorro sobre os poemas de Leonardo Tonus em seu mais recente livro “Agora vai ser assim”. Descendente de italianos, Leonardo é brasileiro e professor de literatura na Sorbone, em Paris há muito tempo, o que o torna um homem universal, brasileiro e europeu, que empresta esse olhar multifacetado para o fazer poético. Atravessando espaços físicos e estados mentais, costurando-os e apontando o sentido das tragédias de nossa época, em escala mundial, o autor toma por matéria a vida marginal de nosso tempo: os imigrantes sobreviventes em Calais, as vítimas de Aleppo, o menino morto numa praia da Turquia , o grito sufocado das mulheres na travessia de mares em busca de dignidade, em busca de vida, entre outros não menos importantes, mas igual e normalmente abordados como insignificantes frente ao inflexível desenvolvimento capitalista. A poesia ata todos esses pedaços da existência humana de forma emocionada, uma emoção que move:
“[às vezes] resvalo
morro abaixo.
Mas o bom de ser
Sísifo [ou pedra]
É saber que sempre haverá
Um topo de montanha” (p. 84)

Conhecedor da teoria que é, o poeta muda de lado, Tonus liberta-se de métodos e procedimentos para denunciar, com lirismo, com o uso de belos e fortes jogos de palavras, os tormentosos acontecimentos pessoais e sociais deste nosso tempo em que precisamos de voz:
“No refúgio não há epifanias.
Há silêncio.
Um silêncio oco.
O silêncio-soco dos que habitam
A espera
À espera
Da pergunta que nunca virá (...)” (p. 14)

Urge uma voz liberta e consciente, uma voz que não fira, mas que deixe tatuadas em nossas mentes e corações as emoções contraditórias de uma época que apresenta diariamente a gangorra pendendo para um passado nebuloso repleto de censura, xenofobia, intolerância, discursos e atitudes que julgávamos vencidos e ultrapassados. Um dejá vu que assombra porque ressuscitado das trevas. Tudo isso porque:
“O terror não se descreve
o terror não se narra
o terror não se esquece” (p.13)

Mas ainda é preciso gritar, poeta! Sua travessia não é inútil. É sempre necessário perceber que ainda existe espaço à solidariedade, à amizade, ao amor romântico e a poesia é o locus perfeito para que se exponha o quanto temos de humanos, porque a partir de agora vai ser assim. Afinal,
“A premissa de toda escrita é o gesto
não a palavra” (p. 35)

Então, se o poeta afirma que “eu não sei quanto pesa o arrepio das palavras” (p. 46), ao mesmo tempo demonstra profundo conhecimento da natureza humana para assegurar que, sim, indignação movimenta, altera, perturba. O entusiasmo criador de Leonardo Tonus conduz ao pensamento e à ação concreta. Poesia e consciência social estão amalgamados no livro. Que seja assim, agora e sempre.

Por Maria Emilia Algebaile

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Sobre "CORROSÃO", de Ricardo Labuto Gondim



E quando se pensa que as respostas estão no futuro, lá vem o passado nos reapresentando questões irrespondíveis. Ao concluir a leitura do livro “Corrosão”, de Ricardo Labuto Gondim, inicia-se a (re)leitura de nós mesmos. Impressinou-me demais. Não sou uma devoradora de livros de ficção científica e, confesso, a literatura brasileira carece de mais obras do gênero. Então, foi com um certo ceticismos que iniciei a leitura, como quem está á beira do Mar do Norte e, diante da imensidão e do frio, coloca apenas as pontas dos dedos na água gelada. Quando me dei conta, estava mergulhada tal qual o Titanic, não naufragada, mas absorvida pela escrita sedutora do autor. Em meio a palavras e conceitos que eu desconhecia completamente, já desde o primeiro capítulo, a leitura prende. Prende e nos arrasta junto com a nave espacial Nikola Tesla para uma viagem da qual não voltamos os mesmos. O título não poderia ser mais apropriado, metaforicamente o leitor é levado a colocar em dúvida e questionar algumas das verdades que julgava cláusulas pétreas... em muitas situações nossos valores são colocados em xeque e nos vemos angustiados com as decisões  dos personagens, cuja composição é sólida e merece todo o reconhecimento. Muito interessante também o jogo imagético e simbólico  entre o microcosmo da nave com sua tripulação e o universo expandido com suas galáxias e buracos negros; a contraposição e o embate feroz entre passado e futuro, entre o ser-particular e o ser-genérico. É no espaço-tempo da nave que se percebe todo o embate entre categorias temporais e a ação decisiva do homem (ainda) sobre a máquina. Diametralmente oposto ao tempo ficcional é o tempo do leitor que viaja e transcende, corroendo e sendo corroído, mas seguindo em frente pronto para novas leituras da realidade que se apresentatá. A nós leitores, fica o devir de uma escrita que conquista desde a primeira página e não se esgota no ponto final.
Parabéns, Ricardo. Eu, realmente , não esperava nada menos de você.
Maria Emilia Algebaile

terça-feira, 24 de abril de 2018

EU SIGO - Post para o Caneta, Lente e Pincel



Está escuro, mas vai clarear
Eu sigo
O medo não vai me parar
Pessoas dormem
Gente sofre
As baratas passeiam no chão
Eu sigo
Outros me seguirão?
Uma hora, eu sei, essa sombra vai clarear
Cada amanhecer tem o seu tempo
Não adianta acelerar
Bichos de hábitos noturnos
Povoam bares, bordeis, todos na escuridão
Crianças nascem
Crianças morrem de medo do bicho papão
Está escuro e eu sigo
Ninguém me para não
Em frente ou pelo atalho
Eu sigo
Que um dia a luz surgirá
Queiramos, desejemos, ou não.
Eu sigo
E quem quiser vir comigo,
Chega mais perto, me dê a mão.
O caos se renderá ao impulso da emoção.

Poema: Maria Emilia Algebaile
Imagem Lúcia Dias

domingo, 18 de março de 2018

AS BRUMAS DA BAÍA DE GUANABARA - Para o Caneta, Lente e Pincel

Naquele dia, as brumas chegaram mais tarde. Um início de sol já esquentava as carcaças dos cariocas quando uma névoa branca veio chegando pelo mar e invadiu praias, ruas, túneis, pessoas, bairros, chegando aos recantos mais distantes da Baía da Guanabara, das almas, dos corações e das  mentes.
Por onde passava, despertava comportamentos fundamentados sabe-se lá em que parte obscura da mente e do coração. Aos que pensaram nas Brumas de Avalon, foi fácil imaginar rituais sob a densa cerração com homens e mulheres dionisíacos dançando, bebendo e fazendo sexo pelas areias das praias desertas, quando o Rio ainda não era o que é hoje, mas já tinha nas entranhas a promiscuidade e a lascívia.
Quem achou tratar-se do fim do mundo, aproveitou-se do espesso nevoeiro para dar sentido à vida e se entregar à realização dos mais escondidos pecados, coisas em que nem ousavam pensar. Não era nem preciso fechar os olhos e deixar-se ir. As brumas tinham esse efeito embriagador e provocador, ao mesmo tempo em que serviam de escudo e esconderijo.
Alguns pensaram numa passagem bíblica e buscaram sua religação com o divino, abandonando seus sagrados corpos aos prazeres exigidos pelos deuses do amor e da luxúria. Rituais de encantamento e fertilidade cederam lugar aos comportamentos 3X4 das revistas de fofocas e as pessoas se sentiram mais felizes.
Homens e mulheres de negócios que, no início, ficaram com raiva por conta do atraso nos vôos da ponte aérea, deram-se um momento de folga, afrouxando a gravata, pisando descalços o chão gelado dos aeroportos, pensando em nada como fórmula para obter o maior lucro daquela situação. Era muito bom não ser.
Muitos sentiram um cheiro de fumaça no ar, coisas queimando no inferno, rabos e tridentes vermelhos fustigando a rotina e a mesmice. Sentiram o perfume de pizza, churrasco, fogão à lenha e fogueira de São João e alguns choraram de saudades da infância.
Quem usava óculos, teve as lentes embaçadas e os que não usavam, tiveram a sensação de que havia algo escondido a ser decifrado. O que viam não estava muito claro e passaram a desconfiar das sombras e da claridade. Para se prevenirem de acidentes mais graves, pensaram em ligar os faróis de neblina, mas a vida ainda não inventou um dispositivo desses para o corpo humano, de modo que tiveram que guardar a desconfiança e deixar que a crença ocupasse o pouco lugar à luz do dia, daquele dia.
 Eu fiquei pensando nas noites que não vivi, nas camas que não frequentei, nos poemas que tentei escrever, nas lágrimas que já verti à toa e me deu uma vontade louca de viver de verdade. E aí, um vento começou a soprar, um vento brando desses de beira de mar que me revirou os cabelos, os sonhos, os medos e me revirou o jeito de achar que as coisas não tem solução, de pensar que eu não tenho juízo, de fazer força para encobrir o que há de bom na vida. E esse vento foi ficando mais forte, as brumas se dissiparam, o sol voltou a brilhar. E brilhou tão intensamente que me inundou de luz. As pessoas retomaram seu curso. E eu corri para viver a minha vida porque já estava atrasada para ser feliz.

Texto: Maria Emília Algebaile
Imagem: Márcia Carmo

quinta-feira, 1 de março de 2018

Poema de Maria Emilia Algebaile inspirada nos quadros de Pilar Domingo por ocasião dos 450 anos do Rio de Janeiro


RIO 450

Ele está dentro de mim
Ele está dentro de nós
Acima olhando por todos
Por dentro desfazendo nós

Construindo esta cidade
Leste Oeste Norte Sul
O Cristo que anima o Rio
Anda calado arredio
Sabe que o povo está nu

Cariocas sobre águas
Emprenhados de beleza
Cariocas peças raras
Com negras chamadas Terezas

Habitante das entranhas
Gestando essa gente feliz
Úteros, linhas estranhas
Cristo gerando vida
Vidas criando Raiz

Foco e fé no Criador.
O Rio sangra, é domingo!
O Cristo samba, que lindo!
Riso, choro e muito amor.

O Rio Redentor
O Cristo de Janeiro
União da cidade partida
Sonho morte e redenção
Sina de um povo inteiro