sábado, 19 de maio de 2018

Sobre o livro AGORA VAI SER ASSIM, de Leonardo Tonus



A poesia, se não arrebata, foge ao seu destino. E é com enlevo que discorro sobre os poemas de Leonardo Tonus em seu mais recente livro “Agora vai ser assim”. Descendente de italianos, Leonardo é brasileiro e professor de literatura na Sorbone, em Paris há muito tempo, o que o torna um homem universal, brasileiro e europeu, que empresta esse olhar multifacetado para o fazer poético. Atravessando espaços físicos e estados mentais, costurando-os e apontando o sentido das tragédias de nossa época, em escala mundial, o autor toma por matéria a vida marginal de nosso tempo: os imigrantes sobreviventes em Calais, as vítimas de Aleppo, o menino morto numa praia da Turquia , o grito sufocado das mulheres na travessia de mares em busca de dignidade, em busca de vida, entre outros não menos importantes, mas igual e normalmente abordados como insignificantes frente ao inflexível desenvolvimento capitalista. A poesia ata todos esses pedaços da existência humana de forma emocionada, uma emoção que move:
“[às vezes] resvalo
morro abaixo.
Mas o bom de ser
Sísifo [ou pedra]
É saber que sempre haverá
Um topo de montanha” (p. 84)

Conhecedor da teoria que é, o poeta muda de lado, Tonus liberta-se de métodos e procedimentos para denunciar, com lirismo, com o uso de belos e fortes jogos de palavras, os tormentosos acontecimentos pessoais e sociais deste nosso tempo em que precisamos de voz:
“No refúgio não há epifanias.
Há silêncio.
Um silêncio oco.
O silêncio-soco dos que habitam
A espera
À espera
Da pergunta que nunca virá (...)” (p. 14)

Urge uma voz liberta e consciente, uma voz que não fira, mas que deixe tatuadas em nossas mentes e corações as emoções contraditórias de uma época que apresenta diariamente a gangorra pendendo para um passado nebuloso repleto de censura, xenofobia, intolerância, discursos e atitudes que julgávamos vencidos e ultrapassados. Um dejá vu que assombra porque ressuscitado das trevas. Tudo isso porque:
“O terror não se descreve
o terror não se narra
o terror não se esquece” (p.13)

Mas ainda é preciso gritar, poeta! Sua travessia não é inútil. É sempre necessário perceber que ainda existe espaço à solidariedade, à amizade, ao amor romântico e a poesia é o locus perfeito para que se exponha o quanto temos de humanos, porque a partir de agora vai ser assim. Afinal,
“A premissa de toda escrita é o gesto
não a palavra” (p. 35)

Então, se o poeta afirma que “eu não sei quanto pesa o arrepio das palavras” (p. 46), ao mesmo tempo demonstra profundo conhecimento da natureza humana para assegurar que, sim, indignação movimenta, altera, perturba. O entusiasmo criador de Leonardo Tonus conduz ao pensamento e à ação concreta. Poesia e consciência social estão amalgamados no livro. Que seja assim, agora e sempre.

Por Maria Emilia Algebaile

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Sobre "CORROSÃO", de Ricardo Labuto Gondim



E quando se pensa que as respostas estão no futuro, lá vem o passado nos reapresentando questões irrespondíveis. Ao concluir a leitura do livro “Corrosão”, de Ricardo Labuto Gondim, inicia-se a (re)leitura de nós mesmos. Impressinou-me demais. Não sou uma devoradora de livros de ficção científica e, confesso, a literatura brasileira carece de mais obras do gênero. Então, foi com um certo ceticismos que iniciei a leitura, como quem está á beira do Mar do Norte e, diante da imensidão e do frio, coloca apenas as pontas dos dedos na água gelada. Quando me dei conta, estava mergulhada tal qual o Titanic, não naufragada, mas absorvida pela escrita sedutora do autor. Em meio a palavras e conceitos que eu desconhecia completamente, já desde o primeiro capítulo, a leitura prende. Prende e nos arrasta junto com a nave espacial Nikola Tesla para uma viagem da qual não voltamos os mesmos. O título não poderia ser mais apropriado, metaforicamente o leitor é levado a colocar em dúvida e questionar algumas das verdades que julgava cláusulas pétreas... em muitas situações nossos valores são colocados em xeque e nos vemos angustiados com as decisões  dos personagens, cuja composição é sólida e merece todo o reconhecimento. Muito interessante também o jogo imagético e simbólico  entre o microcosmo da nave com sua tripulação e o universo expandido com suas galáxias e buracos negros; a contraposição e o embate feroz entre passado e futuro, entre o ser-particular e o ser-genérico. É no espaço-tempo da nave que se percebe todo o embate entre categorias temporais e a ação decisiva do homem (ainda) sobre a máquina. Diametralmente oposto ao tempo ficcional é o tempo do leitor que viaja e transcende, corroendo e sendo corroído, mas seguindo em frente pronto para novas leituras da realidade que se apresentatá. A nós leitores, fica o devir de uma escrita que conquista desde a primeira página e não se esgota no ponto final.
Parabéns, Ricardo. Eu, realmente , não esperava nada menos de você.
Maria Emilia Algebaile