quarta-feira, 10 de julho de 2013

BOCA DO INFERNO


Fotografia: Sarita Bondim


Grita, que o mundo é surdo
Parla, que eu não escuto
Dessa boca infernal
Saem palavras que queimam
Palavras que cheiram mal

Mais que flechas envenenadas
Mais que tiro bem certeiro
Falas de um jeito que mata
Feres quem não te acata
Maldizes o mundo inteiro

Mas há de chegar o dia
Em que o fogo apagará
Em que fecharás os olhos
Pra teu coração escutar

Será tarde, sinto muito,
Para tentar ponderar
O fogo da tua consciência

É que te consumirá

quinta-feira, 4 de julho de 2013

LEMBRANÇAS

                                 Fotografia: Sarita Bondim

Lembra dos dias frios
em que deitávamos na grama para descobrir o céu?
 Ficávamos lá parados,
respiração compassada,
mãos dadas por um descuido,
o coração se lançando em busca dos ecos do amor.
Éramos tão jovens
E estávamos tão apaixonados
que nem nos dávamos conta disso.
Queríamos apenas estar juntos
e, juntos, permitimos que o tempo passasse.
 A lua estava sempre cheia
porque não olhávamos o real
mas sim o céu possível.
E as estrelas que cintilavam
já estavam extintas há tantos milhões de anos
que nem poderiam servir de testemunhas
ao milagre da construção de nosso afeto.
Deixávamos que as horas voassem
enquanto nos embriagávamos de ilusões
e acabamos por não perceber
 o momento em que surgiu o lado negro da lua.
Aquela lua que, envergonhada de nossas reticências,
resolveu não mais se oferecer inteira aos nossos sonhos
deixando-nos qual estrelas apagadas
carregando pela vida a triste lembrança
do brilho do que um dia fomos.

                                                                

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Política e futebol

Todos naquele país pareciam alienados, gostavam de praia, samba e futebol; assistiam uma emissora de TV que transformava corações e mentes em massa de manobra e a vida seguia, lenta e fria.
Um dia, porém, o sol nasceu diferente. Seus raios penetravam cada olhar, cada pensamento, cada coração daquele povo e iniciou-se uma mudança. Uma mudança de dentro para fora.
Era época de campeonato de futebol e os políticos aproveitavam estes momentos de mobilização nacional para enfiar goela abaixo as leis e regras que desejassem, da forma e intensidade que quisessem. Mas, como eu disse, algo estava mudando.
Foi então que, no jogo final do campeonato, deu-se o fato. Estádio lotado, jogo maravilhoso, o time campeão. Das arquibancadas começou-se a ouvir um brado retumbante e o sol em raios fúlgidos brilhou mais forte naquele instante. O povo se reuniu e sequestrou o time campeão. Como? Indagava a imprensa internacional? Simplesmente sequestrou. E era tanta gente que não havia como mandar a polícia pra cima. Jogadores e povo se irmanavam, uma coisa linda de se ver.
O resgate foi simples: trocaram o time campeão pelos membros do poder legislativo, que se encontra até hoje confinado a espera de uma solução, já que ninguém quer arcar com as despesas necessárias para a libertação dos "sequestrados”.

Nunca antes, na história daquele país, o futebol tinha servido tanto à política. E, embora não tivesse tido muita glória no passado, o povo agora tinha certeza da paz no futuro.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Revista eletrônica Varal do Brasil

http://pt.scribd.com/doc/149855997/Varal-No-24-Julho-Ago-2013

Varal do Brasil - Maio/Junho de 2013www.varaldobrasil.com
p. 175

RISCO INTERIOR
Por Maria Emilia Algebaile

Não rianem faça graça
não conte o que não viu
mesmo com festa na praça
sofro no meu covil
e o que passa em minha vida
como novela barata
não está ao alcance da vista
não acontece a troco de nada
por mais que me traia a noite
o dia nasce é verdade
e o entulho de meu pensamento
confirma que sou covarde
não sei o que vejo, mas sinto
que não posso controlar
o perigo me assusta
o perigo é sentimento
o perigo é esse amor
o perigo está ardendo
mil olhos me veem passar
mil janelas a me espreitar
basta um trejeito, um aceno
pra guiar o meu olhare
 meu olho não sabe nunca
se olha pra fora ou pra dentro
e meu olho salta aos olhos
buscando respostas no vento
meu outro olho me lembra
que o perigo está dentro.
não sei se espio escondido
por detrás daquele muro
não sei se sou espreitado
no mais íntimo ato impuro
sempre tem a luz do sol
chegando antes que eu entre
calando a frase na boca
matando o feto no ventre.

Este poema compõe o livro “Fratura Exposta”,de Maria Emilia Algebaile, lançado em abril de 2013, no Rio de janeiro, pela Editora Verve.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Evento: Encontro com o Caneta, Lente e Pincel


Este evento foi realizado na casa da Leitura - PROLER, em Laranjeiras, RJ, dia 14/05/2013.
Na ocasião, houve a apresentação do grupo, do projeto e a leitura de alguns textos com a exposição da respectiva foto que serviu de mote.
Nesta foto, leio meu texto "Estudante paga meia", inspirado no desenho de Fernanda Franco.
Aqui, o texto:

Hoje eu acordei com um soco encravado e preciso me livrar dele. Já resolvi que o primeiro cliente que pedir desconto, vai ganhar é uma porrada. Eu sou assim e pronto. Às vezes me dá uma zoeira e eu acordo azucrinada, geralmente isso acontece quando é o dia de fazer depilação. Quer coisa mais desagradável do que depilação? Porque eu gosto de ser peludinha, mas tem cliente que não gosta, tem gaiato que me coloca apelido e eu fico puta quando me chamam de “ursinho Blau Blau” ou sei lá que porra de bicho peludo seja. Pois é, eu tenho cabelo pra caramba e minha mãe dizia que eu tinha herdado isso do meu pai. Mas essa história de me zoarem e me chamarem de “menino peludo” já deu nos nervos e eu comecei a raspar. Mas aí a Veruska me disse que depilar é mais legal e coisa e tal e fui experimentar a porra da depilação. Decidi e quando eu decido... Eu sou assim e pronto. 
Só o que aquela bicha velha não contou era que ela estava aprendendo a depilar e precisava de uma cobaia...eu. Cheguei lá e ela arrancou meus cabelinhos da perna. Doeu pra caralho, mas ela me convenceu a fazer a barba que estava nascendo. Ela me disse que a carinha lisa era muito mais gostosa, que os garotos iam adorar e coisa e tal. Deixei. Porque eu penso bem, eu meço as coisas para decidir. Mas quando eu decido... Eu sou assim e pronto. 
Decidi deixar e ela me chapou a cera quente na porra da minha cara e puxou como se tivesse puxando o último baseado... arrancou tudo, quase meu gogó foi embora...primeiro ficou lisinho, mas depois foi ficando vermelho, em alguns pontos saiu até sangue e a cara começou a inchar e eu fiquei igual a uma boneca inflável, com a cara toda lisa e estufada. Fiquei uma semana tendo que agüentar a rapaziada me chamando de Lady Boy, que eu descobri depois, no Google, que era o nome de uma tal boneca erótica. E o pior é que queriam desconto porque diziam que era estranho... Que ódio! Eu já cobrava meia pra estudante, que acho uma coisa justíssima, mas desconto..... 
Nunca mais falei com a Veruska, mas descobri um lugar decente pra depilar a perna e os braços de vez em quando. E hoje é dia. 
A rigor, pra ser bem sincera e falar de dentro do meu coração, eu gosto de ser peluda, mas tem essa história do meu pai e depois tem essa coisa da depilação que me traumatizou pra cacete. Então, como é do meu feitio, eu pensei bem, considerei todos os aspectos e decidi que seria meio a meio. Depilação só nas pernas e nos braços. O resto ficaria cabeludo. Mas tem alguns clientes, essa porra desses estudantes, que me pedem desconto porque me acham estranho.... Logo eu, que dou desconto social... 
O fator surpresa sempre me excitou muito. Com os clientes nem sempre dá certo, principalmente com a estudantada, que eu prefiro, mas que me sacaneia muito. Tinha um até que me propôs trabalhar num circo quando me aposentasse, substituindo a Konga, aquela macaca que todo mundo que teve infância conhece. E no dia que esse cara falou isso eu fiquei muito puta e parti pra cima dele, mas ele era mais forte e quem dançou foram meus dentes. Depois, quando ele viu que eu estava banguela, ficou arrependido e até cuidou de mim uns tempos. Mas aí, acho que ele passou no vestibular, não sei se pro Rio de Janeiro ou pra São Paulo e a lembrança que tenho dele é a falta dos dentes, a proposta de um trabalho num circo e o pedido de desconto, porque todos os carinhas acham estranho ir com um cara desdentado. Esse, o do soco, esse deu trabalho pra esquecer porque eu não cheguei a decidir que não queria mais ver o desgraçado. O tempo se encarregou disso. E quando isso acontece, eu, que também sou sensível, fico mal pra caramba. Eu sou assim e pronto. Sensível, peluda, desdentada e dura. 
E é por essa e por outras que hoje eu desencravo esse soco na cara do primeiro que me pedir desconto. 

http://canetalentepincel.blogspot.com.br/2011/09/estudante-paga-meia.html

domingo, 12 de maio de 2013

Preparando para entrevista da TV Escritor, na Editora 5W, sobre meu livro "Fratura Exposta"




Nesta entrevista pude falar sobre o processo de criação do livro. Também me foi perguntado sobre o fato de eu escrever meu primeiro livro de contos e crônicas e este de poemas. Muito interessante o papo sobre literatura, o fazer literário...assim que for ao ar, eu aviso!