terça-feira, 29 de outubro de 2019

A FALTA


A FALTA

Faltam-me letras e frases,
Falta-me, sobretudo, coragem.
Porque as palavras sangram,
As letras não são suficientes
E a poesia não tem limites.
Sou pouca e enquadrada,
Não me sinto indignada,
Não sofro de amor e não sonho,
Não questiono nem faço louvação.
Não posso ser poeta.
A vida é rara.
Falta-me alguma dimensão.


Maria Emilia Algebaile

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Em Santiago de Cuba, uma boa lembrança




Balada de los abuelos





Sombras que sólo yo veo,
me escoltan mis dos abuelos.
Lanza con punta de hueso,
tambor de cuero y madera:
mi abuelo negro.
Gorguera en el cuello ancho,
gris armadura guerrera:
mi abuelo blanco.
Pie desnudo, torso pétreo
los de mi negro;
pupilas de vidrio antártico
las de mi blanco.
África de selvas húmedas
y de gordos gongos sordos…
—¡Me muero!
(Dice mi abuelo negro).
Aguaprieta de caimanes,
verdes mañanas de cocos…
—¡Me canso!
(Dice mi abuelo blanco).
Oh velas de amargo viento,
galeón ardiendo en oro…
—¡Me muero!
(Dice mi abuelo negro.)
¡Oh costas de cuello virgen
engañadas de abalorios…!
—¡Me canso!
(Dice mi abuelo blanco.)
¡Oh puro sol repujado,
preso en el aro del trópico;
oh luna redonda y limpia
sobre el sueño de los monos!
¡Qué de barcos, qué de barcos!
¡Qué de negros, qué de negros!
¡Qué largo fulgor de cañas!
¡Qué látigo el del negrero!
Piedra de llanto y de sangre,
venas y ojos entreabiertos,
y madrugadas vacías,
y atardeceres de ingenio,
y una gran voz, fuerte voz,
despedazando el silencio.
¡Qué de barcos, qué de barcos,
qué de negros!
Sombras que sólo yo veo,
me escoltan mis dos abuelos.
Don Federico me grita
y Taita Facundo calla;
los dos en la noche sueñan
y andan, andan.
Yo los junto.
—¡Federico!
¡Facundo! Los dos se abrazan.
Los dos suspiran. Los dos
las fuertes cabezas alzan:
los dos del mismo tamaño,
bajo las estrellas altas;
los dos del mismo tamaño,
ansia negra y ansia blanca,
los dos del mismo tamaño,
gritan, sueñan, lloran, cantan.
Sueñan, lloran. Cantan.
Lloran, cantan.
¡Cantan!
Tomado de West Indies Ltd., en Obra poética 1920-1972, La Habana, Instituto Cubano del Libro, 1972.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

POSTAGEM DO BLOG CANETA,LENTE E PINCEL


Eram tantas as asas
Quando tinha os cabelos escuros
Tantos voos
Com as pernas ainda sãs
Tantos sonhos
E desejos
E planos
E agora este rés de chão
Olhando para baixo
Para baixo
Para dentro do meu coração

Imagem: Marilene Nacaratti
Texto: Maria Emilia Algebaile

quarta-feira, 4 de julho de 2018

DESERTO


DESERTO

De longe - distâncias
De perto - carências
Por dentro - ignorâncias
Por fora - ausências


Deserto é falta de referências.

sábado, 19 de maio de 2018

Sobre o livro AGORA VAI SER ASSIM, de Leonardo Tonus



A poesia, se não arrebata, foge ao seu destino. E é com enlevo que discorro sobre os poemas de Leonardo Tonus em seu mais recente livro “Agora vai ser assim”. Descendente de italianos, Leonardo é brasileiro e professor de literatura na Sorbone, em Paris há muito tempo, o que o torna um homem universal, brasileiro e europeu, que empresta esse olhar multifacetado para o fazer poético. Atravessando espaços físicos e estados mentais, costurando-os e apontando o sentido das tragédias de nossa época, em escala mundial, o autor toma por matéria a vida marginal de nosso tempo: os imigrantes sobreviventes em Calais, as vítimas de Aleppo, o menino morto numa praia da Turquia , o grito sufocado das mulheres na travessia de mares em busca de dignidade, em busca de vida, entre outros não menos importantes, mas igual e normalmente abordados como insignificantes frente ao inflexível desenvolvimento capitalista. A poesia ata todos esses pedaços da existência humana de forma emocionada, uma emoção que move:
“[às vezes] resvalo
morro abaixo.
Mas o bom de ser
Sísifo [ou pedra]
É saber que sempre haverá
Um topo de montanha” (p. 84)

Conhecedor da teoria que é, o poeta muda de lado, Tonus liberta-se de métodos e procedimentos para denunciar, com lirismo, com o uso de belos e fortes jogos de palavras, os tormentosos acontecimentos pessoais e sociais deste nosso tempo em que precisamos de voz:
“No refúgio não há epifanias.
Há silêncio.
Um silêncio oco.
O silêncio-soco dos que habitam
A espera
À espera
Da pergunta que nunca virá (...)” (p. 14)

Urge uma voz liberta e consciente, uma voz que não fira, mas que deixe tatuadas em nossas mentes e corações as emoções contraditórias de uma época que apresenta diariamente a gangorra pendendo para um passado nebuloso repleto de censura, xenofobia, intolerância, discursos e atitudes que julgávamos vencidos e ultrapassados. Um dejá vu que assombra porque ressuscitado das trevas. Tudo isso porque:
“O terror não se descreve
o terror não se narra
o terror não se esquece” (p.13)

Mas ainda é preciso gritar, poeta! Sua travessia não é inútil. É sempre necessário perceber que ainda existe espaço à solidariedade, à amizade, ao amor romântico e a poesia é o locus perfeito para que se exponha o quanto temos de humanos, porque a partir de agora vai ser assim. Afinal,
“A premissa de toda escrita é o gesto
não a palavra” (p. 35)

Então, se o poeta afirma que “eu não sei quanto pesa o arrepio das palavras” (p. 46), ao mesmo tempo demonstra profundo conhecimento da natureza humana para assegurar que, sim, indignação movimenta, altera, perturba. O entusiasmo criador de Leonardo Tonus conduz ao pensamento e à ação concreta. Poesia e consciência social estão amalgamados no livro. Que seja assim, agora e sempre.

Por Maria Emilia Algebaile

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Sobre "CORROSÃO", de Ricardo Labuto Gondim



E quando se pensa que as respostas estão no futuro, lá vem o passado nos reapresentando questões irrespondíveis. Ao concluir a leitura do livro “Corrosão”, de Ricardo Labuto Gondim, inicia-se a (re)leitura de nós mesmos. Impressinou-me demais. Não sou uma devoradora de livros de ficção científica e, confesso, a literatura brasileira carece de mais obras do gênero. Então, foi com um certo ceticismos que iniciei a leitura, como quem está á beira do Mar do Norte e, diante da imensidão e do frio, coloca apenas as pontas dos dedos na água gelada. Quando me dei conta, estava mergulhada tal qual o Titanic, não naufragada, mas absorvida pela escrita sedutora do autor. Em meio a palavras e conceitos que eu desconhecia completamente, já desde o primeiro capítulo, a leitura prende. Prende e nos arrasta junto com a nave espacial Nikola Tesla para uma viagem da qual não voltamos os mesmos. O título não poderia ser mais apropriado, metaforicamente o leitor é levado a colocar em dúvida e questionar algumas das verdades que julgava cláusulas pétreas... em muitas situações nossos valores são colocados em xeque e nos vemos angustiados com as decisões  dos personagens, cuja composição é sólida e merece todo o reconhecimento. Muito interessante também o jogo imagético e simbólico  entre o microcosmo da nave com sua tripulação e o universo expandido com suas galáxias e buracos negros; a contraposição e o embate feroz entre passado e futuro, entre o ser-particular e o ser-genérico. É no espaço-tempo da nave que se percebe todo o embate entre categorias temporais e a ação decisiva do homem (ainda) sobre a máquina. Diametralmente oposto ao tempo ficcional é o tempo do leitor que viaja e transcende, corroendo e sendo corroído, mas seguindo em frente pronto para novas leituras da realidade que se apresentatá. A nós leitores, fica o devir de uma escrita que conquista desde a primeira página e não se esgota no ponto final.
Parabéns, Ricardo. Eu, realmente , não esperava nada menos de você.
Maria Emilia Algebaile